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12.7.09

Aos que se dizem intensos

Por conta de uma chuva ácida, precisei deixar claro o que muitas pessoas confundem. Vamos tomar cuidado com as palavras: elas têm vida.

Por que falar verde, se quer dizer amarelo? Assim como verde quer dizer verde, intensa quer dizer intensa = pessoa dotada da capacidade de sentir com profundidade os sentimentos, emoções e tudo o que experimenta; ou pessoa que se direciona com força para algum lugar. Mas para viver intensamente, é preciso também uma boa dose de lucidez e de acesso. Ao contrário do que praticam os muitos que se dizem intensos, a intensidade não é o que entorpece. A pessoa intensa vai buscar um contato verdadeiro, de alma, de corpo, de espírito. Intensidade é um contato completo.

O processo químico experimentado por quem usa drogas, por exemplo, é na verdade uma fuga do que é, é resultado de uma incapacidade, mesmo que temporária, de criar, de reconhecer, e de ser no tempo algo cada vez mais puro de ruído. O que as pessoas chamam de intensidade muitas vezes é o oposto: é vício, é o não-acesso, é a invenção, é um delírio de uma coisa querendo ser o que não é, é a dependência da sensação de que.

Lembremos que sexo, drogas e rock’n roll não são sinônimos de intensidade, assim como tudo em excesso vira o oposto. Intensidade é primeiro você com você mesmo, todos os fios conectados.

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no fundo, todo mundo quer ser cigarra.

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7.7.09

Incansavelmente

A noite vem chegando, não avisa, não avisa mesmo que as horas estão passando assim tão discretamente rápido. Coisa louca esse tempo de quem faz e tem ideias, será que existe alguma passagem paralela?

O que o dia não é mais é o cansaço, é onde o corpo quer cair silencioso. Calma noite que me afaga o corpo denso de tarefas. Viro noite imprevisível sem pijama, sem começo. O antes-do-dia é sempre um grande mistério. Saboreio. Peço que me levem para uma viagem bonita e bem acompanhada. A reza é o contato. A noite é a passagem. O cansaço, o desgosto do corpo em permanecer acordado para as coisas do mundo. Dormir é bom.

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29.6.09

Andando para trás: Michael Jackson e sua vida ao contrário

Demorei para assimilar o que aconteceu. Eu fiquei fã do Michael Jackson aos 14 anos e 15 anos depois soube da sua morte por meio de um torpedo de celular, a caminho do cinema.

Aos 14 anos eu podia não saber nadíssima da vida, mas já começava a ler o mundo e a reconhecer fora de mim as coisas como elas são. E com o Michael foi assim, eu reconheci nele uma musicalidade hipnotizante, um talento que ele não poderia evitar de transbordar na sua voz , na sua dança e em todas as suas composições. Na vida, temos uma voz própria e inigualável, e quando ela surge e vem pra fora, quem tem ouvidos pra ouvir reconhece o divino que existe ali.

Eu volto agora 15 anos no tempo. Oitava série do primeiro grau. Uniforme marrom de colégio de freira. Jogos de vôlei e basquete nos intervalos das aulas. Truco no recreio. Música como companhia para as horas mais inomináveis. Essa era eu aos 14 anos.

Volto pro agora numa viagem breve de lembrança, e a ficha cai. A morte existe.

Eu tenho o que eu chamo de efeito retardado para assimilar algumas coisas: a morte e os grandes sustos são algumas delas: estou diante de tudo o que uma morte pode me fazer pensar sobre a vida.

O moonwalk teria sido um reflexo físico da involução emocional de Michael? Porque a vida que ele levava à medida em que se tornava mais e mais conhecido, era de pura pressão. Não era ele quem decidia o que fazer ou a que horas fazer. Uma vida sem liberdade é uma vida sem riqueza alguma, e não importa se você tem um castelo, um parque de diversões no jardim ou uma conta bancária full of money.

Não se trata de um “idiota prodígio”, como disseram alguns, mas de um coitado que não evoluiu seus talentos musicais para uma vida saudável e feliz. Ele não conseguiu superar, por motivos que eu não saberia explicar – muito menos julgar - o vazio deixado pelo próprio pai. Ele não teve coragem de cavar e encarar a escuridão temporária, para depois nascer de novo: preferiu a morte gradual escondendo-se cada vez mais da vida. Não era uma pessoa má. Mas não viveu a alegria de ser tudo o que tinha para ser nem conseguiu experimentar a paz que deriva da liberdade mais simples.

A morte e a vida dele caminharam para o mesmo lugar. Faltou colo pra ele, faltou paz, faltou tudo.

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26.6.09

"Não importa se é a cantiga de uma lâmpada ou a voz da tempestade, a respiração da noite ou o gemido do mar que o cerca, sempre vigia atrás de você uma vasta melodia, tecida de milhares de vozes, em que apenas de vez em quando há espaço para seu solo. Saber quando é sua vez de cantar, esse é o segredo de sua solidão, como é a arte da verdadeira interação: deixar-se cair das palavras imponentes para entrar na melodia única, compartilhada."

Rilke.

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17.6.09

voltei de um passeio, do infinito aconchego da tua companhia. a noite crescendo num chá silvestre milagroso. i'm home.

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16.6.09

Nem sempre os textos são só alegres ou só tristes

Não sei o que transbordo. Algo em mim está tão mudamente cansado que nem me diz mais nada.

Falta o silêncio da calma do tudo-no-seu-tempo. Não é angústia. Preciso mergulhar naquela solidão absoluta que me leva de volta ao verdadeiro lugar. Canso deste mundo. Canso da falta de tempo para o tudo-que-importa. Canso de mim mesma dizendo isso. Era pra tudo estar feliz como é o lugar em que nos encontramos.

A tristeza poética é esse corpo cansado e mudo.

Mas o dia passa e eu desperto. Corto o meu cabelo, trabalho mais. Estou diante da cara feia que é o meu cansaço. Eu encaro o espelho e ensaio outras expressões: faço aparecer o que mais se aproxima de mim. Escrevo, fico quieta e acato. No final eu acato, porque preciso aprender a não falar nada a não ser quando estou próxima do meu lugar verdadeiro.

O silêncio passa a não ser um equívoco, passa a não ser anylonger um peso suspenso no ar.

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7.6.09

Falsos espiritualistas

Talvez o pior de tudo para mim tenha sido o meu próprio silêncio. Choque térmico.
Eu fiquei parada, dizendo alguma coisa apenas com os olhos, discordando com todas as partes do meu corpo, mas muda de palavras.

Depois de algumas horas ali empolgada aprendendo novas receitas veganas para o meu dia-a-dia hipoglicêmico, presenciei a palestrante falando para uma platéia de umas 250 pessoas que comer carne, além de ser perigoso para a saúde, é também um risco sério porque a criança pode “virar gay”. Ela deixou claro que são anormais todos que amam ou têm relações amorosas com pessoas do mesmo sexo. Depois, é claro, cinicamente ela suaviza (para quem?) sua colocação dizendo que “não podemos julgar ninguém”. (Risos?)

Bom, precisamos dar rostos às palavras. Trata-se de uma senhora de 72 anos, Suely Pereira, cabelos brancos, gosta de falar de Deus e de pregar a verdadeira comunhão de espírito. É naturalista e ministra cursos há alguns anos propagando a importância da alimentação sobre a nossa saúde física e espiritual, ensinando receitas vegetarianas.

Tudo bem que o vegetarianismo dessa senhora não começou porque ela acredita que os animais têm o mesmo direito à vida que nós temos: o vegetarianismo dela só existe enquanto for interessante para sua própria saúde. Ela quer desintoxicar o próprio corpo e coincidentemente a alimentação vegana cumpre esse papel. Então o que há de divino no comportamento dessa mulher? O que a habilita a falar de Deus?

Não, não estou julgando as motivações dela, apenas onde ela se trai: na prática do seu discurso pseudo espiritualista e no não-respeito que faz dela uma pessoa inapta a pregar qualquer coisa que se refira à natureza divina. Ela não faz a menor ideia do que isso seja, o que ela entende é de panelas e boas receitas.

Ah, essas pessoas que pregam códigos morais exemplares, que falam do respeito, do amor, e da comunhão, porque aprenderam essas palavras, elas querem falar do que não sabem. Ora, o respeito é o gesto mais valioso, porque ele é a semente dos outros. Tudo o que vem depois, o amor, o carinho, admiração, etc, partem dele.

Santa falácia, santa hipocrisia. Está ficando chato demais o preconceito na boca dessa gente politicamente correta.

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5.6.09

Amanhã já vira dia

Quero que esta noite suspensa e todas as outras durem uma madrugada suficiente para tudo caber. Sei que cada dia é outro. Sei que cada dia é uma rega no mesmo mundo. Só não queria perder o calor da noite deitada na minha alma...

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1.6.09

tinha aranhas grandes em teias grandes no meio das árvores. o sol pintava as folhas bem verdes e dava ao meu corpo um pouco de si. minha manhã começou com uma oração no meio da natureza: pequeno passeio do corpo.

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31.5.09

letríssimas lembranças

pra não engolir
o tempo,
deixa cair
a folha
deixa gritar
a rua
deixa respirar
teu espírito vivo
deixa a cama
amassada assim mesmo

canta uma coisa no tempo
enquanto tudo vira tarefa
aquece teu corpo num banho
e não te esquece
da vida que mexe

por que será
que não te sobra tempo?

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22.5.09

Primeiras linhas

Por um instante gigante, voltei para a montanha onde eu tinha encontrado deus. Então senti que todas as primeiras linhas vinham daquele lugar virgem onde nasce água nova.

Aquela expedição de 6 dias me valeu ao menos por aquele instante: ter subido tudo aquilo com uma mochila quase maior do que eu, ter escorregado pelos caminhos que a chuva deixou na terra, ter caído e levantado, ter convivido com a minha própria solidão, com os meus barulhos e os de fora, ter sentido cansaço, ter dormido e acordado, ter carregado peso e visto que precisava de muito menos: depois da subida sempre tem alguma coisa muito simples e maravilhosa esperando a nossa chegada.

De cima daquela montanha, eu senti deus em tudo e tudo em silêncio. Onde tudo se origina, o que tudo é, como tudo respira. Toda a paisagem e absolutamente tudo era para chegar ali: diante do simples que me fez chorar, porque não cabia em mim.

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11.5.09

Conversas de ventilador
(O que aparentemente engole a inspiração faz brotar depois alguma coisa)

Cansada de ouvir a ladainha das pessoas lamentosas da vida. Sempre centradas no espelho. Sinceramente, fico pensando porque sempre atraí gente assim pelo caminho, gente que só me liga pra se sentir bem. As exceções são preciosidades - ainda bem que existem, mas não queria que fossem exceções.

Precisar fazer um desabafo, bater um papo para clarear as ideias, saudável, bacana, energizante. Mas usar o outro de anteparo, de móvel da sala, de porta-coisas, por favor, eu não serei essa pessoa. Depois a pessoa se questiona por que o namoro acabou, por que ó céus ó vida ó tudo. É tempo demais lamentando um copo quebrado, um rodapé mal pintado!

Essas pessoas só pegam o telefone para contar todas aquelas tragédias emocionais delas, mas o pior não é isso. O pior é que insistem em ficar tristes ou lamentosas e dedicam isto a você. Pintam seus ouvidos e confundem isso com amizade.

Que bom seria ligar para compartilhar boas histórias, coisas que acrescentem a ambos os lados, besteiras gostosas, trocas verdadeiras e não entulho emocional, depósito de lixo. Que você acha desse meu texto? Que tal essa frase no último verso? Que tal essa composição, essa foto, essa ideia? Não, nada disso: o planeta delas são elas mesmas, ficam girando incessantemente.

Você vai precisar dessas pessoas e elas te devolverão o problema. São sempre elas. E em suas autoimagens elas são rainhas: teorizam uma unha encravada, transformando aquilo no problema-mor do universo. Elas normalmente não se ligam a trabalhos sociais, transcendentes, estão fincadas no chão e em si mesmas, não se dedicam ao outro. Tudo que fazem é para satisfazer algum buraco que habita-lhes o ser. Ora, buracos todos temos, mas elas têm os buracos. Elas se dão muito bem com quem tenha talento para ser na vida um mero tapador de buracos, mas ficam sempre no mesmo lugar, girando e voltando ao início.

Gostam de procurar vidente, esse povo que diz “vejo você encontrando um elefante depois de amanhã perto de uma escada” – e elas acreditam: têm dificuldade de se ouvir porque suas tagarelices internas não suportam o silêncio. Essas pessoas usam outras pessoas.

Não sei que conjuntura planetária eu estou vivendo, sei que não aguento mais lamentosidades. A vida é curtíssima, todos temos nossas tristezas e dores, então, por favor, a little respect and a little less blableblibloblu.

Mas por que será tudo isso? Porque desaprendemos a rezar? Porque desaprendemos o principal, que é nossa ligação à fonte da vida? Ora, essa coisa de fazer chupeta de energia está mais que pra lá de desonesto. Fiquemos atentos às “amizades”.

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