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21.11.09

Tijolos formando a oca parede – Parte II (final)

Se a ordem é cortar o caule de uma árvore sadia, façamos assim, então: para não ficar nada, jamais, em aberto. Costuremos esse ponto final no lugar de tudo o que poderia ser: mas da minha parte, espere apenas uma não-vingança depois de tanto susto e da falsa ideia de que existiria algum respeito verdadeiro. Da minha parte, nada diferente da pacífica distância e dos olhos sempre despertos e não contaminados. Isso ninguém nunca precisará fazer por mim: dizer sobre o outro. Porque eu mesma sei o que cada um é.


ao mesmo tempo em que fui idiota

querendo sentir uma remanescente paz,
fui tudo o que podia ser;
ao mesmo tempo em que cometi os meus enganos,

eu que me lancei humanamente,
tropeçaste também;
ao mesmo tempo em que convicções externas se acumulam inside you,
eu me liberto a cada dia do que não é verdade ou nunca foi.

ao mesmo tempo em que
você castiga sem perceber
(como se fosse possível não ver que se tem sangue nas mãos)
eu vivo os meus dias
plantando sementes
sementes-palavras
vivendo vivendo e vivendo
sem moralismos exagerados
sem precisar espremer nada no tempo
sem precisar carregar tantos tijolos
construídos e colocados para encobrir
a intimidadora presença
da verdade:

ela vem sempre
sempre que houver espaço.

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19.11.09

Tijolos formando a oca parede – Parte I

Quando as coisas não encaixam, por mais que nos digam o que é a verdade, paremos.


O principal elemento que nos tira a capacidade de perceber as coisas: o medo. E a mágoa entupindo a passagem por onde a lucidez quer adentrar. Colocamos às vezes uma parede inteira perante nós mesmos, paredes-convicções: que acreditamos serem verdades.

Mas é compreensível que façamos assim, chega a ser uma proteção contra outras dores possíveis. Eu entendo e respeito o tijolo e a parede que nos deixam seguros sobre o mesmíssimo chão conhecido. Mas aí há um perigo: o de nos perdermos da vida – e esse é um dos papéis sombrios que o medo cumpre.

Porque uma coisa é acharmos a nós mesmos, na profundidade e na beleza do que somos; outra é desenharmos o que o outro é em cima de frágeis sensações que facilmente se confirmam por forças futriqueiras – forças que agem e se fortalecem em cima do que está em aberto e precisamos completar.

Blessed is the truth, because it’s all we have.

Tudo milimetricamente construído sem saber que o edifício inteiro é uma muralha de segurança máxima. Cada convicção-tijolo comprada naquela mesma rua, toda semana, pontualmente, servindo para que alguma resposta preencha então os lugares em branco.

Se o gesto é para compartilhar uma descoberta boa, se é por um transbordamento que se quer dizer alguma coisa, então um impedimento não é suficientemente ofensivo para que se mande matar. Uma raiva que se sobreponha a qualquer coisa fazendo uma parede oca enfeitada de tijolos montados um a um é cegueira.

Primeiro eu me assusto. Para então entender tudo perfeitamente, e segundos depois voltar a me assustar com esse emaranhado desfeito: estou pronta para decidir algo importante.

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16.11.09

Blessed is the truth about everything.

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12.11.09

Always protected

Nada se compara à liberdade de poder escrever um texto: nada se antepõe à mais verdadeira intenção.

Olha só o que eu faço com o preconceito: olho pra ele durante um profundo instante, amasso ele com a medida certa de raiva e jogo ele todinho no lixo. Assim como eu faço agora com tudo que não presta: falsidade, coisa estragada por dentro, sorrisos idiotas.

Raro mesmo é gente com verdade no olhar. Gente cujo coração não precisa de coisa alguma para aceitar o outro.

Peço aos leitores, de coração, que se buscam vaidades, se buscam futricagem, polêmicas, se pensam que aqui é um lugar onde alguém escreve banalidades literárias, peço que fujam daqui. Isto aqui é um agora vivente. É uma água escorrendo, é um todo que não quer se perder em leituras empobrecidas e apressadas.

Aqui é sagrado porque é onde deixo escapar as verdades. E como eu não quero que verdades se percam em olhares pontiagudos, peço que se retirem da sala os que não me lerem com o coração.

Saibam também que estou devidamente protegida contra energias de qualquer natureza. Eu percebo tudo antes e mesmo sem saber o que é, já estou pronta. Na natureza é tudo assim: farejamos primeiro, e achamos na volta.

E se lhes falo em uma outra língua, é porque poeticamente a coisa penetra no lugar certo.

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9.11.09

Eu fico tão feliz quando esse calor exagerado vai embora. Quando descubro que tem mais uma caixa de congelados veganos na geladeira. Quando a chuva cai assim bem no ponto. E quando chove de novo como um triunfo do silêncio sobre a humanidade.

Mas feliz mesmo eu fiquei quando consegui dar o digno fim a um filme que me atormentava há meses. Acabei doando o chatíssimo banheiro do papa para uma casa espírita. Desatenção grave da minha parte não perceber que aquilo não era exatamente uma doação muito adequada, mas fui logo salva pelo destino: o filme foi derrubado pelos rapazes que vieram buscar as mercadorias doadas, ficando pelo caminho. Achei o DVD no chão do corredor, e desacreditando que ele havia voltado para mim, tratei de jogá-lo no lixo imediatamente. Qualquer coisa, menos o banheiro do papa! O homem demorou um século para fazer aquela privada, para o papa não aparecer. O filme é realmente deprimente. Lento, lento, lento, pra depois não acontecer mais nada e ainda acabar em miséria. Eu não premiaria uma produção como aquela, que me fez dormir tantas vezes.

Uma vez ouvi de uma pessoa muito querida que devemos dar vida aos objetos. Para este novo ano que logo chega, eu aconselharia a todos os que querem desbravar novos caminhos, renovar as energias e cuidar para que tudo cresça, que revejam suas vidas começando por seus armários e gavetas. Roupas guardadas que você não usa há séculos, biquínis esgarçados, remédios vencidos, escovas de dente desmanteladas, blusas rasgadas, cuecas e meias furadas, e mesmo as coisas inteiríssimas mas que nada mais têm a ver com o que você é hoje: passe a bola, manda pra frente. Alguém pode dar vida a um objeto que você simplesmente afunda num canto escuro do armário para não ver.

Se não soubermos cuidar da gente, como saberemos cuidar do que quer que seja? Cheiro de poeira quer dizer descuido, quer dizer que estamos ausentes perante as coisas que precisam dos nossos cuidados. E nesta vida tudo que existe precisa de várias idas e voltas, vide o pano no móvel, vide a louça na água, vide a rega diária na planta cuja sede dura uma vida inteira. E olhar para os objetos, tomar contato com eles é exatamente como cuidar da sua própria história e vida.

Mudar é eterno, mas isso não quer dizer que o que fazemos sempre seja a mesma coisa só porque vivemos do eterno retorno: o copo é o mesmo, mas a água é sempre nova.

Faz silêncio. As mentes todas deitadas. Pena que amanhã cedo despertam as almas atormentadas. E começa de novo aquele buzuzu de gente correndo, indo pra lugar nenhum. Cantoria desvairada da cidade. Todo dia nasce tudo de novo. Sim, o dia é novo embora não pareça.

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7.11.09

pacto autobiográfico

planta viva
pé molhado
chuva boa
tarde livre
café com horta
rede colorida
horas de presença
sono de inocência
jardim ensolarado
nós em completude.

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31.10.09

Senhora gata

Vento bom de piscina, eu pós-banho. No céu passam as nuvens e um helicóptero. Decidi que a pausa era agora.

Ontem minha gatinha tomou um banho com shampoo de criança. O budum estava forte e eu decidi que daquele dia não passava. Usei um mini secador, mas mesmo assim ela ficou um pouquinho estressada. Ela deve ter juntado um cheiro de poluição, com a própria baba de gata, e aí foi virando um cheiro que o meu olfato não reconhecia como digno de um ser elegante como ela.

O banho foi com um paninho. Como ela já vem sendo submetida a um estresse por conta do tratamento renal (soro toda semana), preferi que fosse o mais suave possível, o que eu não podia era deixar a gata cheirando gaveta empoeirada. O bafinho não tem jeito mesmo, o estômago dela está um pouco debilitado por conta dos remédios e da própria deficiência renal que ela apresenta. Mas deixaria ela cheirosinha, sim, mesmo com um pano perflex.

Ela é de uma força incrível, continua subindo na máquina de lavar roupa, que fica numa altura que ela só alcança por pura força de vontade. É uma senhora gata. Sabe do seu lugar, sabe os momentos e os cantos da casa onde pode se esbaldar de dormir. Aquilo tudo é dela.

O veterinário a apelidou de Matusalém, pois ela já está perto de completar os seus 20 anos de idade. Para mim, além da graça de ser uma gata, ela é também uma linda prova da vontade de viver, da força da presença, da elegância e ao mesmo tempo de uma doce fragilidade. Tuti Maria, uma senhora gata: siamesa, sabida e agora cheirosa.

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20.10.09

o fluir dos agoras

Escrever escrever escrever - até tudo virar o que é. Depois de tudo se revirar o suficiente no dentro das coisas. Escrever absolutamente tudo, desde o gosto deste suco, desde a cor do dia, desde a coceira e a alegria, até a redonda certeza que vem em seguida.

Estou diante do céu descoberto. Sem saber do céu, o que eu seria? A escrita é como esticar o braço e sentir.


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16.10.09

Mestiça noite acordada

Marisa monte na veia
Melhor mojito da cidade
Mestiça noite
Fazendo do dia
Um respiro de hortelã
Risada descontrolada
De vida vinda assim
Suave, chovendo por fora

Todos os roncos do mundo
Num apartamento pequeno
Graça da noite
Mais um dia
Como nenhum outro

Quando tudo é engraçado
Será essa a verdadeira lucidez?
E se for, é toda pura,
Toda cheia de alegria
Onde cabe toda a vida
Acordada

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7.10.09

O vento a soprar. Soprava muito forte o vento. Balançava a minha casa que era alta, sólida e colorida. O vento vinha forte, e dava pouca chance de tudo não virar pó sobre o chão. Mas eu não via o final, apenas me lembro da tremedeira.

Esse sonho não foi pra mim. Coincidentemente, tenho feito leituras de todos os gêneros sobre a caminhada humana e sobre o que está prestes a se pronunciar neste mundo. O vento do sonho é a maldade humana, só pode ser. Ou o que mais nos levaria para o chão?

Não pensem que porque não ouvimos os gritos de fome e de frio das crianças, que porque não vemos os olhares mudamente tristes dos animais sendo mortos, torturados, dilacerados para consumo, que por isso não estamos sendo parte da Dor. Não pensem que o mundo esquece o que só está aumentando.

Eu sinceramente preferiria escrever rimas encantadas. Mas não dá, não há tempo mais para besteira alguma, não há tempo para nada que não seja limpar esse mundo da escuridão e da falta de amor. Limpar a si mesmo.

Estamos perto de uma coisa inominável e os primeiros avisos já estão sendo estampados sobre nossas peles, olhos e ouvidos.

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6.10.09

borboleta branca

escrever coisas com rima não carece. mesmo o dia estando alegre, mesmo a vida sendo simples. não esperem que floresçam rimas da minha lucidez, mas esperem de mim tempo para uma poesia constante. a alegria em qualquer verso.

Há quem confunda lucidez com tristeza. A boa lucidez é a clareza seguida de movimento. Se não dá para esperar rimas deste mundo, ainda podemos fazer poesia. Porque a vida insiste. Mas a paciência da vida tem limite, assim como o corpo, assim como tudo.

Um verso duro, uma frase dura não querem dizer amargura. Mas não posso esperar ninguém me dizer. Nem vou esperar hora nenhuma. Escrevo antes da chuva começar.

Junto com a lucidez vem uma capacidade incrível de criar, como um lanternão do espírito que abre caminhos magicamente.

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deu um acúmulo de poesia no pé
aí a dor passou
porque eu parei pra escrever.



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29.9.09

um texto dedicado aos preparados para o que a decadência humana nos reserva

A ganância fez do mundo esse talvez irreversível.

Eu vejo uma vida outra, profundamente inspirada na vida. Mas o homem não poderia esperar do mundo outra resposta, se até aqui vem destruindo tudo e submetendo outros seres à sua forçada soberania.

Existem aqueles que têm muito e querem mais, sempre mais. Querem tudo; existem aqueles que têm pouco ou nada, e querem tudo; existem aqueles que querem uma casinha confortável, com direito a jardim cheio de plantas.

O que tem aqui não é nosso, está sob os nossos cuidados. Isso significaria que cuidaríamos de nós e do planeta. Protegendo a vida, a poesia, a liberdade, garantindo que a nossa Casa fosse um lugar de paz.

Agora o nosso fim se aproxima do fim das árvores. O que poderíamos ter criado para ter mais tempo de dedicação à Terra e às estrelas, na verdade criamos ao contrário. Entulhamos nossas vidas com todas as desnecessidades do Espírito e, aos poucos, estamos virando escravos.

Era para sermos senhores do tempo e construirmos um outro mundo. Mas o homem quer tudo pra si. Explodirá depois que a terra estiver seca.

Não soubemos existir.


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