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9.11.09

Eu fico tão feliz quando esse calor exagerado vai embora. Quando descubro que tem mais uma caixa de congelados veganos na geladeira. Quando a chuva cai assim bem no ponto. E quando chove de novo como um triunfo do silêncio sobre a humanidade.

Mas feliz mesmo eu fiquei quando consegui dar o digno fim a um filme que me atormentava há meses. Acabei doando o chatíssimo banheiro do papa para uma casa espírita. Desatenção grave da minha parte não perceber que aquilo não era exatamente uma doação muito adequada, mas fui logo salva pelo destino: o filme foi derrubado pelos rapazes que vieram buscar as mercadorias doadas, ficando pelo caminho. Achei o DVD no chão do corredor, e desacreditando que ele havia voltado para mim, tratei de jogá-lo no lixo imediatamente. Qualquer coisa, menos o banheiro do papa! O homem demorou um século para fazer aquela privada, para o papa não aparecer. O filme é realmente deprimente. Lento, lento, lento, pra depois não acontecer mais nada e ainda acabar em miséria. Eu não premiaria uma produção como aquela, que me fez dormir tantas vezes.

Uma vez ouvi de uma pessoa muito querida que devemos dar vida aos objetos. Para este novo ano que logo chega, eu aconselharia a todos os que querem desbravar novos caminhos, renovar as energias e cuidar para que tudo cresça, que revejam suas vidas começando por seus armários e gavetas. Roupas guardadas que você não usa há séculos, biquínis esgarçados, remédios vencidos, escovas de dente desmanteladas, blusas rasgadas, cuecas e meias furadas, e mesmo as coisas inteiríssimas mas que nada mais têm a ver com o que você é hoje: passe a bola, manda pra frente. Alguém pode dar vida a um objeto que você simplesmente afunda num canto escuro do armário para não ver.

Se não soubermos cuidar da gente, como saberemos cuidar do que quer que seja? Cheiro de poeira quer dizer descuido, quer dizer que estamos ausentes perante as coisas que precisam dos nossos cuidados. E nesta vida tudo que existe precisa de várias idas e voltas, vide o pano no móvel, vide a louça na água, vide a rega diária na planta cuja sede dura uma vida inteira. E olhar para os objetos, tomar contato com eles é exatamente como cuidar da sua própria história e vida.

Mudar é eterno, mas isso não quer dizer que o que fazemos sempre seja a mesma coisa só porque vivemos do eterno retorno: o copo é o mesmo, mas a água é sempre nova.

Faz silêncio. As mentes todas deitadas. Pena que amanhã cedo despertam as almas atormentadas. E começa de novo aquele buzuzu de gente correndo, indo pra lugar nenhum. Cantoria desvairada da cidade. Todo dia nasce tudo de novo. Sim, o dia é novo embora não pareça.

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7.11.09

pacto autobiográfico

planta viva
pé molhado
chuva boa
tarde livre
café com horta
rede colorida
horas de presença
sono de inocência
jardim ensolarado
nós em completude.

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31.10.09

Senhora gata

Vento bom de piscina, eu pós-banho. No céu passam as nuvens e um helicóptero. Decidi que a pausa era agora.

Ontem minha gatinha tomou um banho com shampoo de criança. O budum estava forte e eu decidi que daquele dia não passava. Usei um mini secador, mas mesmo assim ela ficou um pouquinho estressada. Ela deve ter juntado um cheiro de poluição, com a própria baba de gata, e aí foi virando um cheiro que o meu olfato não reconhecia como digno de um ser elegante como ela.

O banho foi com um paninho. Como ela já vem sendo submetida a um estresse por conta do tratamento renal (soro toda semana), preferi que fosse o mais suave possível, o que eu não podia era deixar a gata cheirando gaveta empoeirada. O bafinho não tem jeito mesmo, o estômago dela está um pouco debilitado por conta dos remédios e da própria deficiência renal que ela apresenta. Mas deixaria ela cheirosinha, sim, mesmo com um pano perflex.

Ela é de uma força incrível, continua subindo na máquina de lavar roupa, que fica numa altura que ela só alcança por pura força de vontade. É uma senhora gata. Sabe do seu lugar, sabe os momentos e os cantos da casa onde pode se esbaldar de dormir. Aquilo tudo é dela.

O veterinário a apelidou de Matusalém, pois ela já está perto de completar os seus 20 anos de idade. Para mim, além da graça de ser uma gata, ela é também uma linda prova da vontade de viver, da força da presença, da elegância e ao mesmo tempo de uma doce fragilidade. Tuti Maria, uma senhora gata: siamesa, sabida e agora cheirosa.

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20.10.09

o fluir dos agoras

Escrever escrever escrever - até tudo virar o que é. Depois de tudo se revirar o suficiente no dentro das coisas. Escrever absolutamente tudo, desde o gosto deste suco, desde a cor do dia, desde a coceira e a alegria, até a redonda certeza que vem em seguida.

Estou diante do céu descoberto. Sem saber do céu, o que eu seria? A escrita é como esticar o braço e sentir.


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16.10.09

Mestiça noite acordada

Marisa monte na veia
Melhor mojito da cidade
Mestiça noite
Fazendo do dia
Um respiro de hortelã
Risada descontrolada
De vida vinda assim
Suave, chovendo por fora

Todos os roncos do mundo
Num apartamento pequeno
Graça da noite
Mais um dia
Como nenhum outro

Quando tudo é engraçado
Será essa a verdadeira lucidez?
E se for, é toda pura,
Toda cheia de alegria
Onde cabe toda a vida
Acordada

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7.10.09

O vento a soprar. Soprava muito forte o vento. Balançava a minha casa que era alta, sólida e colorida. O vento vinha forte, e dava pouca chance de tudo não virar pó sobre o chão. Mas eu não via o final, apenas me lembro da tremedeira.

Esse sonho não foi pra mim. Coincidentemente, tenho feito leituras de todos os gêneros sobre a caminhada humana e sobre o que está prestes a se pronunciar neste mundo. O vento do sonho é a maldade humana, só pode ser. Ou o que mais nos levaria para o chão?

Não pensem que porque não ouvimos os gritos de fome e de frio das crianças, que porque não vemos os olhares mudamente tristes dos animais sendo mortos, torturados, dilacerados para consumo, que por isso não estamos sendo parte da Dor. Não pensem que o mundo esquece o que só está aumentando.

Eu sinceramente preferiria escrever rimas encantadas. Mas não dá, não há tempo mais para besteira alguma, não há tempo para nada que não seja limpar esse mundo da escuridão e da falta de amor. Limpar a si mesmo.

Estamos perto de uma coisa inominável e os primeiros avisos já estão sendo estampados sobre nossas peles, olhos e ouvidos.

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6.10.09

borboleta branca

escrever coisas com rima não carece. mesmo o dia estando alegre, mesmo a vida sendo simples. não esperem que floresçam rimas da minha lucidez, mas esperem de mim tempo para uma poesia constante. a alegria em qualquer verso.

Há quem confunda lucidez com tristeza. A boa lucidez é a clareza seguida de movimento. Se não dá para esperar rimas deste mundo, ainda podemos fazer poesia. Porque a vida insiste. Mas a paciência da vida tem limite, assim como o corpo, assim como tudo.

Um verso duro, uma frase dura não querem dizer amargura. Mas não posso esperar ninguém me dizer. Nem vou esperar hora nenhuma. Escrevo antes da chuva começar.

Junto com a lucidez vem uma capacidade incrível de criar, como um lanternão do espírito que abre caminhos magicamente.

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deu um acúmulo de poesia no pé
aí a dor passou
porque eu parei pra escrever.



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29.9.09

um texto dedicado aos preparados para o que a decadência humana nos reserva

A ganância fez do mundo esse talvez irreversível.

Eu vejo uma vida outra, profundamente inspirada na vida. Mas o homem não poderia esperar do mundo outra resposta, se até aqui vem destruindo tudo e submetendo outros seres à sua forçada soberania.

Existem aqueles que têm muito e querem mais, sempre mais. Querem tudo; existem aqueles que têm pouco ou nada, e querem tudo; existem aqueles que querem uma casinha confortável, com direito a jardim cheio de plantas.

O que tem aqui não é nosso, está sob os nossos cuidados. Isso significaria que cuidaríamos de nós e do planeta. Protegendo a vida, a poesia, a liberdade, garantindo que a nossa Casa fosse um lugar de paz.

Agora o nosso fim se aproxima do fim das árvores. O que poderíamos ter criado para ter mais tempo de dedicação à Terra e às estrelas, na verdade criamos ao contrário. Entulhamos nossas vidas com todas as desnecessidades do Espírito e, aos poucos, estamos virando escravos.

Era para sermos senhores do tempo e construirmos um outro mundo. Mas o homem quer tudo pra si. Explodirá depois que a terra estiver seca.

Não soubemos existir.


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28.9.09

poesia do dia: um ensaio

mais um chá antes de dormir. cheiro de pão fresco. espera pelo trem. cansaço no pulso direito. piscina com chuva. arroz, feijão, alcachofra e salada. urgências do dia: sou lenta e ágil. bate o vento. gato dorme. samambaia. música-pausa. cabelo comprido. velocidade. perna branquela no metrô. padaria. cansaço sumido. rua de casa. cheiro de milho. rolante que sobe. papete com meia. chuvisco. chuvisco, nada: é poesia forte. chuvão. faltam duas quadras. chuva molhando. papete com meia. fim da saudade.
overdose de alcachofra. sopa quente. pão crocante em um bom azeite. cama quente. noite clara ainda. banho de novo. estou curiosa sobre o instante seguinte. lá no futuramente. acordo cedo. tapioca. café que é para acordar o dia. pão de hoje. mesa posta. saio pronta. fome do que está dentro de tudo e do que é música boa. subo a calçada.

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na prateleira tem tudo
menos o sono que não vem
menos a lembrança bonita
menos o que fica
menos qualquer paz.

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23.9.09

A medida

Exaurida. Meus olhos não aguentam mais o dia. Meu choro é de cansaço. Parece que meu esforço não vale nada. Nada do que eu faço.

O que mais me cansa é tudo isso me levar o fôlego, perco a vontade, não toco música. E ainda por cima tudo o que eu faço é visto apenas como uma lacuna preenchida.

Onde será que eu estou agora? Não tem ninguém por perto, nada se aproxima. A noite lá fora, eu numa beira. Eu num choro de quê. Num dedo prendido no armário. Minha escrita é tudo o que eu sou agora. E o ruído desse avião que graças a deus está passando pra longe.

Eu não tenho nada, não sou nada no tempo. Estou tão impermanente por dentro que nada me tira. Fico assustada. Nem o meu silêncio agora é uma cama boa.

Ninguém é capaz de acolher o meu cansaço, só a escrita, só um deus gigante, só um jardim e os gatos, que não se importam com o meu jeito pálido de lidar com o resto da noite, quando já virei uma coisa sem nome.

Por que tudo tem tanta pressa? Por que essa pressão por fazer coisas engole minha alegria? Por que absolutamente nada pode me compreender agora? Por que estamos tão sós e inadentráveis? Por que tudo tem que vir antes? Qual é o mistério do tempo, por que ele anda escondido?

Meu corpo está trêmulo, mas não se engane que eu não estou brava, estou doída. As palavras totalmente fugidas me deixam nua de possibilidades. Não consigo dizer as coisas. Estou só com o pijama e a mesma dor nas costas. E presa numa sala invisível. Achando com a escrita um caminho secreto. Chamando eu mesma.

O que é isso que me leva todo o meu fôlego? O que é isso que faz de mim o que eu não sou? O que é isso que sorriso nenhum disfarçaria? Essa raiva do tempo voado, que não me deixa tempo. Não é um o quê. É um quanto de tempo, é uma medida. É isso que está me levando acelerada.

O sagrado sou eu que tenho que saber onde colocar. O que não for simples não me interessa. Ter que fazer tantas coisas está doendo o meu corpo. Algo me ajude a parar.

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20.9.09

Nada disso existe, nada que os meus olhos veem, nenhuma roupa bonita, nenhum vento forte, nem mesmo a desconfiança. Não existe essa vontade de chorar e de fazer música. Não existe a minha vista cansada, a minha urgência de silêncio, nem nada do que eu faço. Não existe a janela esfumaçada, não existem amigos, nada do que eu vejo existe. Mas alguma coisa do que eu vejo existe: é o céu em movimento. É a noite destampada. O respiro de paz profunda. Os segundos. Aquela montanha que permanece. Quase nada existe. O que existe é o que virou sopro em mim.

Benditas entrelinhas que dizem tudo. Agora será que eu aprendo que a fala contém pouca coisa? E que as informações estão bem nas lacunas? Por favor, parem de me dizer tanta coisa. O que você é vai da presença, vai de muito mais do que se possa exprimir com a boca.

Outro dia encontrei uma amiga num café. E aprendi algo que eu não esperava ver. O que eu percebi foi que nas nossas conversas aparentemente cheias de liberdade eu não me sentia à vontade de falar de mim e da minha vida. Por mais que eu tentasse avançar a conversa, não sentia acolhimento na presença dela.

A surpresa não foi a sensação, porque pessoas para quem você entrega a sua alma podem ser contadas nos dedos dos pés. Mas ter sido com ela, que eu considerava como uma espécie de irmã.

Não concluí que houvesse algo de ruim vindo dela na minha direção, mas não existia liberdade ali, as almas não estavam abertas. É diferente quando você conhece alguém diante de quem você vai despindo suas aparências aos poucos. Ou quando você está querendo abrir a sua alma e a pessoa ou o ambiente não são os mais propícios. Era outra coisa. Era uma presença ambígua: embora sorridente, não suportaria qualquer silêncio entre nós. Se alguém não aceita o seu silêncio, como poderá compreender suas palavras? Nada existe enquanto não for uma presença, enquanto não partir disso.

Dando voltas pra não me queimar. Porque agora no centro está tudo gritando ao mesmo tempo. Absolutamente tudo mais a dor nas costas. Para surpresa da minha ex-terapeuta, continuo deixando o mais importante para o rodapé. Mas, ao final, solto uma tosse repleta de palavras mudas: em tempo de aliviar.

É que o jeito é fingir que está tudo bem com o mundo, que as pessoas são verdadeiras, que família é sinônimo de querer o bem incondicionalmente, e que o papai noel existe, e que tudo o mais existe. O jeito é abrir o sorriso que todos esperam ver e fazer uma ou outra marquinha de rodapé.

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15.9.09

Um post pop enquanto as palavras dão um passeio

Aproveitando que as palavras andam meio sumidas de mim, vou publicar algo mais comum, talvez desinteressante pra muitos de vocês que me leem com sua poética alma em contato com a minha.

A quinta corda estourada do meu violão merecerá um post à parte. Mas falando em música, descobri um ótimo programa na televisão para assistir e relaxar sem correr o risco de ficar (mais) retardada. Afinal de contas, quase ninguém merece aqueles noticiários com flashes sobre tudo. Nem aqueles conversês sempre iguais em todos os canais. Antes de dormir é bom ver coisa leve. Deus me livre, lars von trier só se for bem cedo.

Mas eu confesso que ando rendida, embora eu abomine televisão. Estou levemente viciada no programa “Ídolos”. O roteiro é divertidinho, mas a química dos cantores com os jurados é o supra sumo. Entre um doido e outro, aparece música de verdade, gente com musicalidade na veia.

Eis aqui o meu pequeno apanhado dos momentos mais "expressivos"do programa. Impossível não identificar o seu vizinho com algum desses talentos cantantes:

A cantora fantasma.



O poeta surtado.



Ursinho power .



O entupido.



Tchuco arretado.



Muito talento para pouca memória.



Das cinzas da fama.



Hã + dor de barriga.



Ticket uai.



À base de biscoitinhos.



Méé.



Mix cajuzinho.



Puro desespero.



O expressivo.



De algum outro planeta.


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